Texto por: Victória Ellen
Fotos: Josué Ernandes
O Cariri Cearense carrega uma herança marcada por histórias de fé, coragem e resistência feminina, mas também por episódios de violência que revelam o quanto a proteção das mulheres ainda é um desafio urgente. Nesse contexto, ganha destaque a atuação do Ministério Público do Ceará (MPCE) na promoção dos direitos, na fiscalização da lei e na indução de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero.
Símbolos dessa trajetória de dor e superação, Benigna Cardoso da Silva, de Santana do Cariri, e Francisca Augusto da Silva, de Aurora, tiveram suas vidas interrompidas de forma trágica. Benigna, assassinada aos 13 anos em 1941 após resistir a uma tentativa de agressão sexual, tornou-se símbolo de fé e combate ao feminicídio, reconhecida pela Igreja Católica como Beata, e popularmente Mártir da Castidade. Francisca, morta em 1958 pelo ex-noivo que não aceitava o fim do relacionamento, é lembrada como mártir e santa popular.
Décadas depois, em 2018, o feminicídio da professora Silvany Inácio de Sousa, voltou a comover o Cariri. Ela foi morta com um tiro no peito durante a festa da padroeira, Nossa Senhora da Penha, na Praça da Sé, no Centro do Crato. O caso expôs como a violência doméstica e o feminicídio atravessam todos os espaços, das casas às praças, dos ambientes religiosos aos profissionais, reafirmando a vulnerabilidade enfrentada por mulheres em diferentes contextos.
Nos tempos de Benigna, Francisca e Silvany, inexistiam estruturas de acolhimento capazes de reunir, em um mesmo espaço, o apoio jurídico, psicológico e social às vítimas. Hoje, o Cariri é visto como modelo regional de rede de apoio às mulheres, com instituições voltadas ao atendimento e à atuação articulada entre órgãos públicos, que fortalecem a proteção e o combate à violência de gênero.
Rede de proteção e Casas da Mulher
Criadas para enfrentar o cenário de violência de gênero, as Casas da Mulher integram o programa federal “Mulher, Viver sem Violência”, reunindo em um só local diversos serviços especializados. O objetivo é facilitar o acesso das vítimas a medidas de amparo e garantir a efetividade dos direitos previstos na Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 e considerada um marco no combate à violência doméstica e familiar no Brasil.
No Ceará, a primeira Casa da Mulher Cearense foi inaugurada em Juazeiro do Norte, em 2022. Três anos depois, em 2025, o Centro de Referência da Mulher Maria Yara Brito Gonçalves foi transformado na Casa da Mulher Cratense, ampliando o atendimento e consolidando o Crato como referência em políticas públicas de proteção no interior do estado.
Esses equipamentos funcionam como centros integrados de atendimento, reunindo, em um mesmo espaço, Delegacia de Defesa da Mulher, Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça e equipes multidisciplinares com assistentes sociais, psicólogas e profissionais do Direito.
Em Juazeiro do Norte, a Casa da Mulher Cearense oferece atendimento 24 horas, acolhendo mulheres de toda a região. Dentro do espaço, atua a Procuradoria do Ministério Público do Ceará (MPCE), responsável por fiscalizar a aplicação da lei e induzir políticas públicas de proteção.
O promotor Emerson Maciel Elias, da 14ª Promotoria de Justiça, explica que o trabalho conjunto com as Casas da Mulher tem garantido respostas mais efetivas e humanizadas:
“Nosso papel é assegurar que a lei seja aplicada com celeridade e que as mulheres tenham não só proteção, mas também meios de reconstruir suas vidas. O Ministério Público é, antes de tudo, um articulador entre os serviços da rede.”
Já a Casa da Mulher Cratense atua de forma complementar, fortalecendo a rede local de proteção. A advogada Isadora Oliveira, coordenadora de Políticas Públicas para Mulheres do Crato, vinculada à recém-criada Secretaria de Direitos Humanos, destaca que o espaço nasceu de um esforço interinstitucional:
“Entramos com o desafio de criar uma secretaria nova e uma coordenadoria voltada especialmente para cuidar da mulher cratense. Nosso principal equipamento é a Casa da Mulher Cratense. Atualmente, mais de 360 mulheres estão sendo assistidas, e ao longo de dez anos já atendemos mais de dez mil.”
Além do acolhimento e dos atendimentos jurídicos e psicológicos, a Casa desenvolve ações educativas e preventivas, como a campanha “Homens pela Cultura de Paz”, que busca envolver o público masculino no debate sobre prevenção à violência.
“Acreditamos que não é apenas com punição que se resolve o problema da violência. É com educação, conscientizando também os homens sobre práticas de violência de gênero que, muitas vezes, são reproduzidas sem que percebam”, acrescenta.
Patrulha Maria da Penha e Delegacia da Mulher

O município do Crato mantém, desde 2021, a Patrulha Maria da Penha, da Guarda Civil Municipal. O grupamento realiza visitas periódicas a mulheres com medidas protetivas e atua junto ao MPCE e às Casas da Mulher. De janeiro até a terceira semana de outubro deste ano, foram 220 atendimentos de fiscalização de medidas e 400 ocorrências durante plantões.
Uma das guardas integrantes que preferiu não ter a identidade revelada explica:
“A gente vai até a residência da mulher para verificar se a medida protetiva está sendo respeitada e também atende às ocorrências que chegam pelo número 153.”
O trabalho é apoiado pela Delegacia de Defesa da Mulher do Crato (DDM), localizada na Rua Dom Quintino, nº 704, Centro, telefone (88) 3102-1250.

Crescimento da violência e subnotificação
Apesar dos avanços institucionais e da ampliação da rede de proteção, os números revelam a necessidade de continuidade e intensificação das políticas de enfrentamento à violência contra a mulher. Entre março e agosto de 2025, a 14ª Promotoria de Justiça de Juazeiro do Norte contabilizou mais de dois mil processos relacionados à violência doméstica e familiar. Em todo o estado, segundo dados do Governo do Ceará, mais de cinquenta mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024.
A subnotificação ainda é um dos principais desafios. Muitas mulheres deixam de denunciar por medo, dependência econômica ou falta de acesso a serviços especializados. A psicanalista Macêdonia Braga observa que a naturalização da violência é um processo que começa cedo:
“Desde a infância, meninas aprendem que ciúme e controle são sinônimos de amor. Precisamos romper essa lógica com educação de gênero e políticas contínuas nas escolas.”
No Cariri, entre janeiro e a primeira quinzena de outubro de 2025, foram registrados três casos de feminicídio em Acopiara, Juazeiro do Norte e Crato, de acordo com dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (SUPESP) e da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS/CE).
De janeiro a setembro do mesmo ano, a região somou 3.187 registros baseados na Lei Maria da Penha. Dos 29 municípios caririenses, 25 apresentaram ocorrências. Juazeiro do Norte concentra o maior número de registros (1.172), seguido por Crato (673), Barbalha (263) e Brejo Santo (187).
A maioria das vítimas tem entre 30 e 39 anos e se declara parda, o que evidencia que a violência de gênero no Cariri também reflete desigualdades raciais e sociais. As idades das vítimas variam de 1 a 98 anos.
Em relação à escolaridade, a maior parte das mulheres vítimas de violência possui ensino médio completo (25,3%). Mais da metade, 53,3%, tem até o ensino fundamental, considerando os níveis de não alfabetizadas, alfabetizadas e ensino fundamental incompleto ou completo. Apenas 12,3% das vítimas possuem ensino superior, completo ou em andamento.
Histórias que rompem o silêncio

As estatísticas ganham voz nas histórias de mulheres que decidiram recomeçar, são relatos que revelam a dimensão humana por trás dos números da violência. Por motivos de segurança, os nomes das entrevistadas foram substituídos por siglas, e não é informada a cidade onde cada uma foi atendida. Todas elas receberam acolhimento em uma das Casas da Mulher.
J.M., 39 anos, viveu treze anos em um relacionamento marcado por agressões verbais e manipulação emocional. “Ele dizia que ninguém ia me querer por causa da minha cor, que eu ia passar fome se o deixasse. Eu acreditava”, conta.
O ponto de virada veio quando ela viu a placa de uma unidade da Casa da Mulher e decidiu entrar. Lá, encontrou acolhimento e orientação. “As meninas me receberam, me ligavam quando eu faltava, perguntavam se eu estava bem. Isso me deu força”, lembra. J.M. participou do curso de empoderamento e empreendedorismo e, hoje, trabalha com crochê, expondo suas peças na feira Elas por Elas, programa do Governo do Ceará voltado à autonomia econômica das mulheres. “A gente começa a entender que liberdade não é luxo, é direito.”
M.J.L., 39 anos, ajudante de produção, viveu situação semelhante. “Eu podia estar morta”, diz. O rompimento com o agressor foi um ato de sobrevivência. Ela lembra que o apoio psicológico e jurídico da CMC foi essencial para se reerguer. “Quando você está dentro da situação, não enxerga saída. Quando procura ajuda, consegue ver com outros olhos”.
M.J.L. reforça que a dependência financeira é uma das maiores barreiras: “Sem autonomia, muita gente volta por necessidade. O acolhimento precisa vir com oportunidades reais de trabalho e renda”.
L.S., 42 anos, engenheira, também encontrou apoio na Casa da Mulher após anos de abuso e humilhação. Ela integrou o Projeto Empodera, voltado à reconstrução da autoestima. “As falas do agressor foram sendo substituídas por palavras de encorajamento”, conta. Em um dos episódios de violência, L.S. foi acolhida por uma amiga que conheceu durante o curso. “O que me salvou foi a rede de apoio”, afirma. Após nove descumprimentos de medidas protetivas, o agressor foi preso. “Durante muito tempo, eu não sabia mais quem eu era. Hoje, eu sei que recomeçar é possível.”
Educação, memória e atuação da rede interligada
Durante o Agosto Lilás de 2025, mês dedicado à conscientização e combate à violência contra a mulher no Brasil, o Ministério Público do Ceará (MPCE) promoveu audiências públicas, rodas de conversa e debates sobre masculinidades, autocuidado e violência simbólica. A Casa da Mulher Cratense também realizou oficinas e campanhas de conscientização, tendo como lema “Romper o silêncio é salvar vidas”.
“O enfrentamento é coletivo. Não basta punir, é preciso educar”, acrescenta a psicóloga e psicanalista Macêdonia Félix, diretora da Casa da Mulher Cearense.
A rede de proteção já se prepara agora para os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, mobilização que ocorre anualmente no Brasil de 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) até 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos), com planejamento de palestras, ciclos de formação, campanhas de mídia e articulação entre os centros de acolhimento, escolas, empresas e organizações da sociedade civil.
Serviços de ajuda e acolhimento
Casa da Mulher Cearense de Juazeiro do Norte, Av. Padre Cícero, 4455 – São José, Juazeiro do Norte, Tel: (85) 98128-8071. Atendimento 24h.
Casa da Mulher Cratense: Rua José Carvalho, 376, Centro – Crato/CE. Atendimento de segunda a sexta, das 8h às 17h.
Delegacia da Mulher (Crato): Rua Dom Quintino, 704, Centro. Tel: (88) 3102-1250.
Delegacia da Mulher (Juazeiro do Norte): Av. Padre Cícero, 4455 – São José. Tel: (88) 3102-1102.
Denúncias: Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) — atendimento gratuito e 24h.
Emergências: Disque 190 (Polícia Militar).







