A sobretaxa de 50% imposta pelos Estados Unidos (EUA) a produtos brasileiros exportados para o país, em vigor desde quarta-feira (06/08), tem mobilizado o setor produtivo cearense na busca por soluções junto aos governos estadual e federal. A medida afeta cadeias como pescados, frutas, cera de carnaúba, castanha de caju, mel e água de coco. O cenário motivou uma coletiva conjunta da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (FAEC), na Casa da Indústria.
Conduzida por Ricardo Cavalcante e Amílcar Silveira, presidentes da FIEC e FAEC, a entrevista apresentou dados, impactos e articulações em andamento para reduzir as perdas. De janeiro a junho deste ano, o Ceará exportou cerca de US$ 1,07 bilhão em produtos, dos quais US$ 544 milhões tiveram os EUA como destino. Aproximadamente US$ 130 milhões correspondem aos produtos diretamente atingidos pela nova tarifa.
“Estamos falando de cadeias longas e intensivas de mão de obra. Só o setor de pescados envolve cerca de 70 mil pessoas no Ceará, entre embarcações, pescadores e pessoal em terra. A castanha de caju emprega mais de 50 mil pessoas. A cera de carnaúba movimenta 170 mil. É uma engrenagem que pode parar”, disse Cavalcante.
Segundo ele, a projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta para a perda de 110 mil empregos no Brasil, sendo até oito mil no Ceará. “Precisamos pensar em soluções de longo prazo para enfrentar isso, mas nossas ações precisam ser de curto prazo”.
O Governo do Estado aprovou, nesta quarta-feira, um pacote emergencial com incentivos fiscais e suporte financeiro. “É uma resposta importante, fruto da mobilização conjunta da FIEC e da FAEC. Mas a gente precisa de mais, assim como também precisamos urgentemente de ações federais. Esperamos que o Governo Federal aja com a mesma velocidade com que agiu o Governo do Ceará”, afirmou Cavalcante.
Entre os pleitos ao Governo Federal estão a retomada do Reintegra, a flexibilização das operações de crédito e a liberação de créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “As negociações não podem parar. É preciso trabalhar para que mais produtos fiquem de fora dessa sobretaxa dos EUA. Portanto, precisamos de tranquilidade e habilidade na condução dessas tratativas”, disse Silveira.
A FIEC informou que, após a entrada em vigor da tarifa, pelo menos 20 contêineres de castanha e um volume significativo de pescado deixaram de ser embarcados. “Inviabiliza totalmente. Nenhuma empresa consegue manter operação com 50% de sobretaxa. Estamos diante de uma espécie de ‘pré-pandemia’ para o setor produtivo”, disse Cavalcante.
Silveira afirmou que as exportações do agronegócio cearense cresceram 25% em 2025, mas que a previsão de alcançar US$ 1 bilhão até 2030 está comprometida. “Precisamos pensar de forma integrada. Indústria e agricultura precisam caminhar juntos para diversificar e fortalecer nossas exportações. O mais urgente é preservar os empregos. Está em jogo o sustento de milhares de famílias cearenses”.
O Observatório da Indústria Ceará está sendo usado para identificar mercados alternativos e orientar os setores afetados. “Isso não se faz da noite para o dia. É preciso tempo para adequar o que deixaremos de exportar aos EUA a outros países, cada um com exigências e medidas sanitárias distintas, sobretudo quando se trata de produtos alimentícios. Estamos estudando uma eventual substituição”, disseram Cavalcante e Silveira.
“A prioridade agora é proteger as cadeias. Se elas se rompem, não conseguimos retomar facilmente. Precisamos atravessar esse período de 90 a 120 dias sem desmontar o que levamos décadas para estruturar”, afirmou Cavalcante.
Entre as propostas discutidas está a inclusão de peixes, castanha, sucos e água de coco na merenda escolar e na alimentação hospitalar, redirecionando parte da produção ao mercado interno.
“Não se trata de defender apenas a indústria ou o agronegócio. É a economia do Ceará que está sob risco. É a renda de milhares de trabalhadores que pode desaparecer. Estamos fazendo nossa parte, mas precisamos de respostas rápidas e eficazes”, disse Silveira.
Segundo os presidentes das duas Federações, o consumo de produtos locais pela população cearense também pode ajudar a absorver parte da produção que não será exportada para os EUA.
