Texto por Victória Ellen
Imagens por Josué Ernandes
Na Rua Santa Luzia, nº 545, no centro de Juazeiro do Norte, o aroma de açúcar no fogo continua atraindo consumidores e turistas para a região do Cariri Ceareanse. Inaugurada em 1965, a Casa do Doce João Martins celebrou seis décadas em junho deste ano. O local, além de preservar a tradição da confeitaria artesanal, também é reconhecido como Museu Orgânico, fazendo parte da rota cultural do município. É o primeiro espaço desse tipo em Juazeiro do Norte voltado à gastronomia regional, onde as receitas se firmam como manifestação cultural.
Sebastião Manoel, 61, genro do fundador e atual responsável pela produção, lembra dos primeiros passos da história. “A Casa do Doce começou em 1965. No início, o mestre João não tinha experiência, perdia muito doce. Mas foi na persistência que surgiu o primeiro doce de batata, que deu certo. Depois veio o de banana, o de gergelim e, mais tarde, o nosso carro-chefe, o doce de leite, que combina com todos os outros onze que produzimos aqui.”
Figura importante nessa trajetória foi Madeilton, que chegou à família ao casar-se com a irmã de João Martins. Ele passou a ajudar na produção dos doces e também ganhou notoriedade na cidade por sua atuação no rádio e no futebol como cronista esportivo. Essa popularidade fez com que muitos começassem a associar os produtos da casa ao seu nome, dando origem à marca Doce do Madeilton, como ficou conhecida por décadas. Antes disso, o local chegou a se chamar Cantinho Esportista, reforçando a ligação da doceria com a paixão esportiva e a vida cultural da cidade, onde comer um doce era também compartilhar resenhas sobre futebol.

De comércio familiar a patrimônio cultural
Ao longo das décadas, o espaço cresceu e se tornou ponto de encontro para moradores e romeiros. “Hoje, nós temos uma casa que sustenta 12 famílias trabalhando de segunda a sábado. Passamos de um comércio pequeno para uma empresa que virou até museu”, afirma Sebastião.
Ele também recorda a transformação após o reconhecimento oficial: “Em 2023, ele se tornou o Museu Orgânico. A partir daí, o desenvolvimento só aumentou. Antes, poucas pessoas, até mesmo da cidade, conheciam a nossa Casa do Doce. Depois do título, passamos a ser reconhecidos internacionalmente. Recebi até uma televisão da Inglaterra para fazer matéria aqui. Hoje, fazemos parte da rota turística de Juazeiro. O Museu Casa do Doce João Martins é um ponto de referência e orgulho para todos nós”.
O aprendizado no fazer artesanal

Entre os funcionários, a rotina é marcada pelo aprendizado. Fernando Campos do Nascimento, 24, que atua nos serviços gerais, destaca que “o trabalho que mais gosto de fazer é o doce de gergelim, preparado no pilão, tarefa que parece até um exercício físico. Para mim, é uma honra trabalhar em uma doceria tão famosa, onde tudo é feito com carinho para agradar aos clientes”.

A cozinheira Ana Paula Rodrigues, 32, recém-chegada à equipe, conta que “no início foi difícil me adaptar porque nunca havia trabalhado no ramo, mas aprendi com a Maria, que já tem mais de 11 anos de experiência. Hoje, meu doce preferido é o de leite, o carro-chefe, mas também gosto das receitas de mamão, caju e abacaxi. O mais gratificante é receber o carinho dos clientes que dizem se sentir em casa aqui”.
A memória preservada pelos clientes

São justamente os clientes que mantêm viva a tradição. João Vieira, 33, frequenta a loja desde criança e relembra: “Sempre gostei do leite cortado e do gergelim. Lembro de vir aqui com meu pai e até hoje, quando tenho um tempo, passo para comprar. Já indiquei para colegas de trabalho, e eles também acabam viciando”.
Para muitos, os doces são sinônimo de memória afetiva. As irmãs Helena Gonçalves, 69, e Betiza Maria do Nascimento, 68, acompanham a trajetória da casa há décadas e garantem que “os produtos continuam os mesmos de quando Madeilton estava à frente da produção. O atendimento é maravilhoso e, mesmo morando fora de Juazeiro por anos, sempre voltamos ao local”. Helena ainda completa: “Meu filho mora em São Paulo e só gosta do doce de leite da Casa João Martins. Sempre levo um potinho para ele quando viajo e indico para todos que vierem a Juazeiro”.
Os Museus Orgânicos no Cariri

Os Museus Orgânicos, iniciativa idealizada por Alemberg Quindins no Cariri, têm como função transformar casas e oficinas de mestres da cultura em locais de memória viva, abertos à visitação e ao turismo. A primeira experiência nasceu com a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, em Nova Olinda, que se tornou o primeiro laboratório desse conceito. Depois vieram espaços como o Museu de São Pedro, em Crato, e o Museu de Antônio Jeremias, em Nova Olinda, ambos financiados com recursos próprios da Fundação Casa Grande.
A iniciativa ganhou ainda mais força com o apoio do Sesc, instituição que integra o Sistema Fecomércio. A Fecomércio, sigla para Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, representa empresas desses setores em nível estadual e regional, defendendo a livre iniciativa e administrando o chamado Sistema Comércio, do qual o Sesc faz parte. Para Alemberg, “essa parceria foi fundamental, porque o Sesc percebeu que os museus orgânicos dialogam tanto com o social quanto com o comércio. É o caso do mestre Espedito Seleiro, que atrai visitantes de todo o Brasil a Nova Olinda e movimenta a economia local”.

Hoje, o projeto reúne uma rede de museus distribuídos por diferentes cidades do Cariri, cada um preservando a autenticidade de um saber, de um ofício ou de uma tradição que atravessa gerações.
Alemberg explica que “os museus orgânicos nascem da arqueologia social inclusiva, ramo da arqueologia que reconhece saberes e fazeres já existentes e transforma a vivência de mestres em patrimônio cultural”. No caso da Casa do Doce João Martins, ele destaca que “ela se insere no ciclo da cana-de-açúcar, em que a família uniu açúcar e frutas regionais para garantir a subsistência, experimentando receitas e transformando saberes em sabores”.
Para ele, o reconhecimento como Museu Orgânico está ligado a três pontos: autenticidade, integridade e universalidade. “O doce é um bem universal. Onde você chega, tem. Ele é autêntico porque preserva sua forma de fazer e íntegro porque se mantém fiel às origens.”
A experiência da Casa do Doce João Martins também dialoga com reflexões presentes nos livros Sesc Museus Orgânicos, volumes 1 e 2, de Alemberg Quindins. Nas obras, que estão disponíveis no site do Sesc, o autor destaca como espaços ligados a mestres da cultura se tornam lugares de preservação da memória e de fortalecimento da identidade regional. Assim como outros museus orgânicos idealizados no Cariri, a doceria se firma não apenas como um ponto de produção gastronômica, mas também como um patrimônio afetivo que atravessa gerações.
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